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O maquinário esta a todo vapor dentro da sala. Sons de placas, fechando e abrindo num frenético ritmo de produção. Em uma caldeira lama é esquentada, a temperatura não é importante, o importante é que a lama tem de ser bem viscosa, suja e oriunda dos lixos de tudo aquilo que é esquecido, de tudo aquilo que ninguém quer enxergar ou pelo menos de tudo aquilo que todos queremos abafar.
Dessa caldeira a lama é escorrida em moldes, que caminham para outras fases da produção, caminhando em harmonia até o processo de formação dos fetos. Fetos que já são formados sem lembranças de coisas boas, de conforto, carinho ou até mesmo princípios.
Numa outra fila, supostas mães e pais caminham na esperança de poder pegar um desses “filhos” com o pensamento no dinheiro que essa prole pode render. Na entrada do fome zero a placa mostra com desenhos (para que eles possam entender) a quantidade de filhos para a quantidade de “esmola” que eles poderão receber.
Enquanto isso, dentro da produção um homem inspeciona o maquinário. Sem muita importância para a qualidade de fetos, mas muito atento ao movimento da máquina. Ele passa por todos os estágios da produção verificando e azeitando as engrenagens. Logo no final do pátio ele sobe uma escada e anda por um corredor aberto de onde pode vislumbrar toda produção. Caminha lentamente com um sorriso malandro no rosto. Percebe um outro homem no final, este engravatado e com um terno impecável carregando uma mochila para notebook nas costas. Ele continua caminhando lentamente até o encontro desse outro homem e diz com uma voz calma:
- Cada vez mais cedo essas crianças fazem sexo não é mesmo?
Com um sorriso maquiavélico no rosto o homem engravatado diz:
- São as estatísticas. Quanto menos instrução mais filhos eles põe no mundo.
O Caminho
Ruas estreitas, carros passando, pessoas apressadas com suas vidas, e tudo o mais que acontece em uma cidade-grande. Mas Gina seguia em frente, mesmo derrubando um vaso de plantas aqui na calçada ou outro ali na varanda.
Mic seguia em sua cabeça indicando a direção a tomar. Algumas vezes precisava descer para pedir maior detalhamento do caminho a outras minhocas. Todas sempre muito amigas e trabalhando em conjunto sempre lhe informavam um ponto à frente. E lá iam as duas amigas.
A Cidade por sua vez, começou a perceber que uma girafa com uma minhoca na cabeça estavam andando pela cidade. Todos começaram a se perguntar o que seria aquilo? E um verdadeiro fuxico tomou conta da cidade.
- O que será que ela quer, para onde ela vai?
- Qual as suas intenções reais?
- Será que é o fim do mundo?
Até que o fuxico chegou a parte da cidade que Gina morava. Os moradores logo arrumaram as coisas, dizendo que Gina era uma verdadeira heroína, mas que precisava de espaço para poder viver feliz. Logo em seguida a cidade inteira já estava se mobilizando em direção a um grande parque nas proximidades da entrada da cidade.
Assim, Girafa, minhoca e cidade, estavam cada qual em seu caminho para se juntarem no final.
No parque
O parque neste momento estava completamente tomado para ver e agradecer Gina. As pessoas estavam ansiosas para ver a Girafa e a Minhoca. Havia faixas, cartazes e muita felicidade no ar.
Quando Gina apareceu no horizonte, foi uma festa linda. Todos pulando, comemorando, gritando seu nome, o nome da cidade, jogando confetes para cima e tudo o mais que uma grande festa merece.
Gina adentrou o parque, olhou para todos e muito comovida quase não teve palavras:
- Muito obrigado, muito obrigado mesmo! Eu nem sei o que dizer ! Muito obrigado.
Dai pra frente todos pularam mais alto e gritaram mais forte e fizeram uma festa nunca vista antes.
Gina estava no meio de todos quando percebeu uma pessoa com uma tela e material de desenho ao longe. Era o desenhista que agora tinha espaço suficiente para enquadrar Gina e os pontos da cidade.
Gina estava feliz e já podia vislumbrar um futuro lindo para ela, Mic e a cidade. Mas isso é uma outra história.
FIM
O novo dia
O desenhista chegou com seu material na hora marcada e lá estava Gina, um pouco nervosa mas ao mesmo tempo ansiosa para ver o resultado.
O desenhista fez vários traços, mas conforme o tempo ia passando o desenhista ficava mais irritado. E Gina foi ficando preocupada também. Qual seria o motivo de tanto nervosismo ?
Em um certo momento Gina não aguentou e foi falar com o desenhista:
- Qual o motivo de tanto nervosismo desenhista ?
- Eu não sei o que esta acontecendo. Eu não estou conseguindo enquadrar você e os detalhes da cidade. Você é muito grande ! Tenho pouco espaço aqui para enquadrar certinho. Eu acho que não vai dar certo Gina. Desculpe pelo transtorno.
- Mas, e o contrato ? e a fama ? e o dinheiro ?
- É Gina, as coisas não são sempre da forma que queremos ou planejamos.
O que fazer ?
Gina ficou arrasada. Como tudo aquilo poderia dar errado. Estava tudo concretizado em sua cabeça. Todos os planos, a fama, o dinheiro. Mas tudo foi por água abaixo.
Mic, vendo a profunda tristeza de Gina ficou desesperada. E ficou matutando ali, o que poderia ser feito. Pensou, e pensou, e andou de um lado para outro e voltou a pensar até que uma grande idéia veio a sua cabeça. Saiu dali e voltou algumas horas mais tarde:
- Ei Gina, levante. Vamos. Eu tenho uma idéia. Vamos mulher-girafa. Vamos
- Não Mic. Eu vou ficar aqui. Não vou fazer mais nada. Estou triste e não quero fazer nada.
- Vamos Gina. Eu tive uma idéia que vai funcionar !
- Porque funcionária? Nada na minha vida funciona, porque agora iria ser diferente?
- Vamos Gina! Todas as minhocas que andam por todos os lugares desta cidade se mobilizaram e encontraram um lugar para você. Vamos Gina, levante logo.
- Eu não vou a lugar algum. Como eu vou poder confiar em minhocas. Não posso confiar em mais ninguém. Não posso.
- Puxa vida Gina, quer dizer que só porque alguém te prometeu algo que não pôde cumprir você agora perdeu a confiança em tudo. Eu sou a sua melhor amiga. Sempre estive aqui para tudo que você precisasse. Mas agora um alguém qualquer vem, te fere e você não quer que ninguém mais te ajude. É muito injusto isso. Pense bem, muito injusto.
- Puxa Mic, como alguém qualquer? Eu já estava planejando tudo certinho para poder viver uma vida legal e espaçosa.
- Mas o que eu quero te dizer é justamente isso, eu e todas as minhocas da cidade, encontraram um lugar pra você. E o melhor é que fica perto daqui.
- Tem certeza Mic? Isso significa que alem de espaço, eu ainda vou poder ficar perto da cidade para continuar ajudando? Tem certeza Mic ?
- Certeza eu não tenho porque não vi o lugar ainda. Inclusive eu estou louca de vontade de conhecer, pelo que dizem tem muita terra da boa por lá. Pensei então que poderíamos ir juntas. O que me diz?
- VAMOS MIC! VAMOS AGORA MESMO.
- EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEBA !!!
E assim minhoca e girafa foram em seu caminho, procurar a tal terra que é boa pra minhoca e espaçosa para girafa.
Continua…